domingo, 27 de novembro de 2011

A OPINIÃO DIFUNDIDA NOS MÉDIA ACERCA DO PATRIMÓNIO E A IMPORTÂNCIA DA CLASSIFICAÇÃO DA UNESCO PARA A SUA UNIVERSALIDADE E DISTINÇÃO


O fado já não é só nosso


Hoje a UNESCO declara o fado como Património Imaterial da Humanidade.


O que isso significa em termos económicos? O Outlook foi à Tasca do Chico, no Bairro Alto, e depois ligou para Bali, na Indonésia, para responder a essa pergunta.

É preciso dizer que seria precisa uma catástrofe para que o fado não fosse este domingo declarado Património Imaterial da Humanidade. É verdade que o VI Comité Inter-Governamental da UNESCO, que analisa e decide sobre as candidaturas, está desde quinta-feira reunido em Bali, na Indonésia, mas também é verdade que o mesmo comité já distinguiu a candidatura portuguesa como "exemplar" - prenúncio de que o fado vai mesmo receber o título. Silêncio - vamos saber o que o país ganha com isso.

À boa maneira portuguesa poder-se-ia dizer que só por termos chegado até aqui já somos vencedores. Mas no meio do fado não se brinca. O que a candidatura portuguesa pretendeu sempre foi a distinção maior - a de "herança cultural intangível", que lhe permite figurar ao lado do flamenco (2009) e do tango (2010) como património do mundo. A candidatura começou a ser pensada pelo então presidente da Câmara de Lisboa, Pedro Santana Lopes, e é hoje defendida com o mesmo empenho por António Costa. Afinal, estamos também a falar da canção de Lisboa.

Essa que se canta às segundas-feiras na Tasca do Chico, no Bairro Alto. E que atira qualquer Beyoncé ou Britney para o fundo da tabela de vendas - em 2009, os quatro artistas que mais venderam em território nacional eram portugueses. E dois eram fadistas. Mariza e Ana Moura dividiram os primeiros lugares com Tony Carreira e Pedro Abrunhosa. E provaram, como outros antes e depois delas, que o fado em Portugal é um bom negócio.

Como prova também a lista de discos de ouro e de platina da Associação Fonográfica Portuguesa - que parece assaltada por fadistas. Só Mariza tem 25 discos de platina em 2010 (conquistados pelos discos "Fado em Mim", "Fado Curvo", "Transparente", "Concerto em Lisboa", "Fado Tradicional" e "Terra"). Também lá estão Amália (com um disco de ouro por "Coração Independente"), Ana Moura com três de platina (por "Para além da saudade")ou Carlos do Carmo (com um disco de platina por "Fado Maestro").

E é por isto, porque o fado é um bom negócio e está em vias de tudo menos de desaparecer, que a candidatura desta canção portuguesa a património mundial não vai trazer qualquer tipo de apoio financeiro ao país. A partir de Bali, o musicólogo e membro da comissão de candidatura Rui Vieira Nery, explica: "Há três programas. O primeiro, que é aquele a que o fado concorreu, é o da lista representativa de património imaterial da Humanidade. O segundo é o da lista de géneros culturais em risco de desaparecimento. O terceiro é o da lista de género com pedidos de apoio à UNESCO. O fado, não correndo riscos de desaparecer, candidatou-se à primeira lista e por isso não irá receber dinheiro da UNESCO".

Então o que é que se ganha? "Vamos ganhar uma exposição pública internacional que é o meio mais valioso que podemos ter. No domingo todos os grandes jornais, revistas e televisões vão estar a falar da candidatura do fado. E isso tem um valor económico em termos de reconhecimento de marca, se quisermos, enorme. Haverá consequências económicas desta candidatura, não há dúvidas", diz Rui Vieira Nery. Victor Gonçalves, vereador pelo PSD na Câmara de Lisboa, e que acompanhou o processo iniciado por Pedro Santana Lopes, também não duvida: "Esta candidatura projecta o país de forma evidente e clara. Será óptimo para o turismo - haverá um movimento de procura que significará um enriquecimento óbvio dos artistas e das casas de fado".

Na Tasca do Chico, o Chico (Francisco Gonçalves) também tem a certeza de que a UNESCO vai dar muito ao fado e ao país. "Vai dar prestígio a um país que está em baixo. Vai trazer mais turistas às casas de fado". Raquel Tavares, uma daquelas jovens fadistas que canta há mais de dez anos, vê mais longe: "O fado está a crescer desde há 15 anos mas ainda tem muito para crescer. Ainda há mercados onde não chegámos. E esta distinção vai ajudar nisso. Vamos chegar a esses mercados com o selo da UNESCO. Vamos chegar à América Latina, por exemplo, e por causa do selo de Património Imaterial da Humanidade as pessoas vão receber-nos sem grandes resistências".

E é isto: nada disto é triste. A menos que o mundo gire ao contrário, o fado vai receber o selo de qualidade da UNESCO. O que é que vai mudar? Ninguém sabe exactamente (o Chico garante que na sua casa, nada), mas toda a gente acredita que será para melhor. E que na hora da consagração toda a gente vai fazer barulho. O barulho da alegria. Porque nada disto é triste, apesar de tudo isto ser fado.

Marques, Ângela (2011, Novembro 27). O Fado já não é Nosso. Hoje a UNESCO declara o fado como Património Imaterial da Humanidade. Jornal Económico. Extraído em 27 de Novembro do sítio web do Jornal Económico: http://economico.sapo.pt/noticias/o-fado-ja-nao-e-so-nosso_132260.html


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